Cuiabá, 16 de Abril de 2026

Bloqueio de Ormuz pelos EUA põe à prova moderação da China

16/04/2026 12:30:00

O bloqueio naval do Estreito de Ormuz pelos Estados Unidos deverá ser sentido de forma significativa na China, a maior compradora de petróleo do Irã.

 

A medida, que busca impedir navios de entrarem ou saírem dos portos iranianos, foi anunciada no fim de semana pelo presidente Donald Trump, após o fracasso das negociações de paz em Islamabad, no Paquistão, no fim de semana.

 

O governo chinês vê o bloqueio como “perigoso e irresponsável,” alertando que “apenas agravará o confronto, intensificará tensões e minará o frágil cessar-fogo”.

 

Após o anúncio da medida, subiram novamente os preços do petróleo, em alta desde o início da guerra no Oriente Médio, e o cessar-fogo temporário se viu ainda mais fragilizado.

 

O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, afirmou que bloquear o Estreito de Ormuz “não serve aos interesses comuns da comunidade internacional”.

 

A rota marítima normalmente responde por cerca de 20% do fornecimento global de petróleo e serve como artéria crítica para as exportações de energia do Oriente Médio.

 

“Outros países estarão envolvidos com este bloqueio”, informou Trump na rede Truth Social, sem especificar a quais nações se referia.

 

Pressão para a China intervir

A mídia estatal chinesa, por sua vez, afirmou que os EUA “distorceram a lógica da questão ao arrastarem mais países para o conflito, já que a causa raiz do bloqueio de Ormuz reside na operação militar EUA-Israel contra o Irã”.

 

Para Zhang Lun, professor da Universidade CY Cergy-Paris, o bloqueio dos EUA visa “forçar a China a entrar em cena”. Segundo ele, a Casa Branca poderia encontrar uma saída honrosa para o conflito – e salvar a própria imagem – se Pequim influenciasse Teerã a aceitar os termos de Washington.

 

Dado o estilo transacional de Trump, Zhang sugeriu que, se a China “desse esta vitória a Trump”, Pequim ganharia poder de barganha em negociações futuras sobre temas como Taiwan. No entanto, ele não acredita que a China intervirá diretamente na guerra no Oriente Médio.

 

Embora um bloqueio do Estreito de Ormuz afete interesses chineses, a prioridade estratégica de Pequim é preservar um equilíbrio delicado, mantendo relações estáveis com todas as partes envolvidas.

 

Narrativa chinesa: “saída graciosa” e “vitória disfarçada”

A mídia estatal chinesa, por sua vez, enquadrou o bloqueio dos EUA como parte de uma “lógica hegemônica” de recorrer à força quando as negociações falham.

 

De acordo com essa narrativa, Washington tem se mobilizado militarmente no Oriente Médio como parte dos preparativos para intensificar a guerra, durante as negociações antes do início do conflito e na recente rodada de negociações mediada pelo Paquistão.

 

A mídia chinesa retrata os EUA como “ansiosos por uma saída graciosa” do conflito, chegando a recorrer à “vitória disfarçada”, ao alegarem que alcançaram seus objetivos no Irã.

 

Mas a mídia estatal descreve o Estreito de Ormuz como uma “vulnerabilidade fatal” para os EUA que não pode ser disfarçada: o fracasso americano no Irã, combinado com a perda de controle sobre o estreito, o aumento dos preços do petróleo e a inflação, poderia ter consequências diretas para o governo Trump nas eleições de meio de mandato dos EUA em novembro.

 

Aposta de alto risco

A narrativa oficial da China interpreta o bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irã como prova de que os EUA e Israel foram “superados” por Teerã. Da perspectiva iraniana, a mudança de postura de Washington, de emitir ultimatos para retornar à mesa de negociações, reflete a resiliência de Teerã e sua recusa em ceder à pressão militar americana.

 

A decisão dos EUA de bloquear os portos iranianos, por sua vez, é vista na China como uma tentativa de compensar a insuficiente influência nas negociações após as ações militares anteriores que não conseguiram forçar uma mudança de regime, um dos principais objetivos de Trump nos primeiros dias da guerra.

 

A decisão dos EUA de bloquear os portos iranianos, por sua vez, é vista na China como uma tentativa de compensar a insuficiente influência nas negociações após as ações militares anteriores que não conseguiram forçar uma mudança de regime, um dos principais objetivos de Trump nos primeiros dias da guerra.

 

No entanto, a mídia estatal chinesa frequentemente descreve o bloqueio dos EUA como uma “aposta”. Com ambos os lados já em estado de prontidão militar, um colapso nas negociações aumentaria significativamente o risco de um conflito mais amplo.

 

Zhang vê ainda como fator-chave o objetivo mais amplo de Washington de controlar recursos energéticos globais, que impõe uma “pressão estratégica” maior sobre a China.

 

Os Estados Unidos já apertaram seu controle sobre a Venezuela. Se o governo americano ainda trouxesse o Irã para a sua esfera de influência e obtivesse concessões da Rússia sobre a Ucrânia, o acesso da China a recursos de petróleo poderia acabar sendo significativamente restrito.

 

Apesar do esforço chinês pela transição energética, o petróleo continua sendo essencial para o país. Como parceira-chave, a China teria instado Teerã a aceitar os termos mediados pelo Paquistão. No entanto, ainda não está claro se o gigante asiático assumiria publicamente o papel de garantidor num eventual acordo.

 

Apoio militar ou “ferramentas” alternativas?

Fontes da inteligência dos EUA alegaram que a China forneceu ou estaria se preparando para fornecer armas ao Irã, segundo reportagem recente da emissora americana CNN.

 

Trump advertiu que Pequim poderia enfrentar novas tarifas de até 50% caso oferecesse apoio militar a Teerã. O Ministério das Relações Exteriores da China rejeitou as alegações na segunda-feira, classificando-as como “difamações sem fundamento”.

 

Hu Xijin, figura influente da mídia chinesa, publicou um comentário no portal Phoenix.com afirmando que tais acusações tinham como objetivo servir de “acusações preventivas” para dissuadir a China. Ele acrescentou que Pequim “ainda tem muitas cartas para jogar”.

 

Zhang também observou que a China dispõe de ferramentas adicionais, incluindo exportações de terras raras. “Se os Estados Unidos transformarem o Estreito em uma arma”, disse ele, “a China também pode transformar as terras raras em arma”.

 

Leia mais reportagens como esta em DW, parceiro do Metrópoles.

 

 

 

Foto: Reprodução/CENTCOM

Por: Pedro Areal / Metrópoles

 

 

 

 

 

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